quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Retrospectiva

Sou alguém que não costuma planejar muito. Gosto mais do acaso, embora acredite que o que recebo como acaso, já tenha sido escrito em alguma das muitas agendas passadas que possivelmente rabisquei. De qualquer forma minha meta de vida hoje é ainda me surpreender. Vivo com integridade e trabalho com dedicação, não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço e estabeleço poucas datas, as imprescindíveis para superar o caos. E aguardo.
Este ano me reaproximei de queridos e me desapeguei de queridas. Pessoas que não me agregavam nada de bom foram sumariamente dispensadas. Aquelas que me sempre me mostram o arco-íris depois da chuva estão cada vez mais perto, mesmo que apenas de coração.
Vi minha filha crescer [muito], se desenvolver [demais] e amadurecer. Estou aprendendo a lidar com uma pré-adolescente, com toda a volúpia e desespero que a condição de mãe me oferece.
Descobri que é possível, sim, me desapegar de antigas paixões e abrir o coração para novos amores. Depois de quase seis anos voltei a chamar alguém de 'amor' e apresentar como 'namorado' sem aquele resquício de 'eu não deveria dizer isso'. A dúvida sobre ser ou não a coisa certa fica entre quatro paredes, enquanto tento aprender a me relacionar e a conviver com alguém tão maduro e experiente quanto eu era há seis anos atrás.
Vi minha mãe prostrada em uma cama por um ano inteiro, e não me senti má pessoa por não me sensibilizar tanto quanto as pessoas esperavam.

Aprendi que família a gente não escolhe, muito menos o que se sente pelos que dela fazem parte.
Que mais difícil do que amar, é conviver.
Que mais difícil do que plantar, é regar.
Que é impossível dizer 'não' e não desagradar.
Que as pessoas são humildes - com H maiúsculo e dourado.
Que mesmo sendo altruísta, sou impaciente e intolerante.
Que sou mãe apesar de ser mulher; e mulher apesar de ser mãe. E isso me confunde.
Que crescer é difícil, amadurecer é dolorido.
Que esperar reconhecimento por qualquer atitude é perda de tempo.



Mas, o mais importante: que sempre há esperança. Sempre há uma luz no fim do túnel. [E que não seja um trem na contramão!]


Feliz Natal! 
[mesmo que com espírito de Grinch! =D]


domingo, 20 de dezembro de 2009

Nunca é [pra] sempre

Às vezes tô de boa, às vezes tô mega mal humorada. Não sou pela metade, sou inteira, sou intensa, sou inquieta.

O maior problema é como as pessoas me veem. Ou me veem como sendo de ferro, e esquecem que o ferro também enferruja. E se quebra.
Ou então pensam que vivo com medo. Acontece que não nasci ontem.

Me vejam me quebrando, me vejam desaparecendo... só eu sei a delícia e a dor de ser quem sou.

Desisto. Jogo a toalha. Pra mim chega. Não quero mais ser uma pessoa só, não quero mais ser um casal, não quero mais ser uma multidão. Não quero mais nada. Só quero ser, e ponto final.


sábado, 19 de dezembro de 2009

Blues da Piedade [Cazuza]



Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas


Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm


Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia


Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada


Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem


Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça


Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade


Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

domingo, 6 de dezembro de 2009

Enfim, noivos!

Há duas semanas, na beira d'água, no começo da madrugada. Ele, ajoelhado. Eu, com a mão sobre a boca. Hoje completamos três meses dormindo e acordando lado a lado todos os dias. Depois de amanhã completaremos seis meses de sentimentos expostos.




Foi num momento especial que nos cruzamos. Num mundo controverso de desejos, sonhos e vontades, demos as mãos e fomos traçando um caminho a dois. Partindo do amor que sentimos um pelo outro e acreditando que esse amor pode ser eterno, sentimos a vontade de começar um nova vida.

Só posso dizer que quero isso tudo pro resto da vida.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O som do gelo no copo de uísque

É a última vez que protagonizo um monólogo aqui nesse chuveiro. Até quando vou ficar desse jeito? Com um choro engasgado na garganta que não sai nem fodendo e com essa vontade louca de ir até ela e tentar arrumar as coisas?
Por que faço tudo errado? Porra, se eu gosto dela, por que não admitir logo que sou um covarde, um moleque que não está preparado para encarar a vida? Eu não quero deixar de viver a vida boa, viver assim. Mas é uma opção e foi a minha opção agora.
Dói saber que ela está sofrendo, dói fazer certas coisas que faço com ela, mas é o inevitável agora. Preciso ser egoísta e me manter intacto mesmo sabendo o idiota que eu sou.
Sei a grande merda que vai acontecer e sei também que ainda há tempo de resolver as coisas. Eu não consigo. Por mais que eu tente eu não consigo deixá-la em paz, na verdade, ela não consegue me deixar em paz e ela também adora uma auto-tortura. Não quero gente louca ao meu lado, mas não queria machucá-la. Eu a quero, mas não agora, não dessa forma. É difícil assumir isso para todos. Minha cabeça está um furacão e com isso eu só faço merda.
Enquanto estou aqui deixando que a água lave a minha alma, tem uma vadia qualquer na minha cama. Eu precisava de sexo hoje, precisava esquecer de tudo, mas não consigo. Ela me ligou agora há pouco, desliguei na cara dela. Filha da puta! Eu estava para gozar e ela liga perguntando se estou ocupado. Ocupado é o caralho, eu queria gozar e ela surge. Para a puta que pariu tudo! Brochei. Por que também não me deixa em paz? Tentei explicar que preciso de espaço e que não quero isso agora. Sei que estou fazendo merda. Mas quando ela vai aceitar isso?
Eu jamais vou admitir que estou errado. Foda, porque eu sei que estou. Eu me cobro porque não quero errar, me cobro porque estou confuso. Eu também não entendo mais porra nenhuma, eu era o primeiro a dizer que queria casar com ela e que queria estar com ela. Eu quero muito isso porque eu sinto algo por ela que nunca senti antes. Tenho vontade de sair por aí, isso me dá um medo do caralho. Não posso errar. Mas quem disse que eu não posso errar? É foda. Cobro tanto ser perfeito que errei demais. Não deveria mesmo fazer isso, ela é uma princesa, cara, ela é. Mas sabe o que é terrível? Ela tirou a minha autonomia, ela tirou a minha masculinidade, sei lá, pareço tão pouco perto dela. Porra, ela é inteligente, dedicada, esforçada, consegue tudo o que quer, além de ser bonita e fazer tudo bem feito. Tinha vezes em que olhava para ela e não sabia se era um sonho ou se era realidade, mas aí a realidade veio à tona. Eu não posso ficar para trás, não posso aceitar que uma mulher me domine assim, que seja melhor do que eu e sei que é o que parece. Gosto dela, cara. Gosto dela até demais e isso me mata. É foda saber que tenho ali no quarto uma bunda ao invés dela. Nada se compara ao cheiro, ao jeito carinhoso de olhar e de me pedir mais um beijo. Nada se compara. Mas eu não posso mais. Sei que um dia posso me arrepender, mas se isso acontecer, ela jamais saberá. Sou homem, homem não se arrepende.
Cara, cadê o que eu era? Não me vejo mais. Será que as cervejas que aquela vadia trouxe aqui me deixaram bêbado? Não, não é possível. Onde estou? Onde fui parar? Não saber amar foi tudo o que aprendi com a vida e assim rejeito o que eu mais quero dela. Meu celular está tocando, ultimamente é a única coisa que tem acontecido comigo e é sempre ela. Foda-se, não vou atender, ela vai perguntar todas as mesmas coisas e vai me fazer ficar irritado, vai me machucar e eu não suporto mais. Preciso me livrar dela e comecei por hoje. Tenho ali no quarto, estirada na cama, uma vadia gostosa que vai me satisfazer nesta noite. Vou suprir a falta dela comendo quantas eu puder, essa sim é uma boa idéia. De volta à antiga vida.
...
Pois é, vai me satisfazer, mas, e depois do sexo? Eu tomo mais uma dose e caio na rotina.

Vida de merda, por que gostar precisa ser tão difícil? Eu sou uma merda humana.

Coloco agora um ponto nisso tudo. Estou semi-nu, estou sempre semi-nu perto daquela maldita, ela sabe me desmascarar como ninguém e para mim já chega. Preciso de garotas acéfalas por perto. Quem será a próxima? Deixa eu ver meu MSN.



Passageiro de viagem sem destino

Despertador tocou. Banho, café, sono. Apenas mais um dia como qualquer outro, dirigindo pela cidade. Ruas e estradas transbordando gente como um caldeirão fervendo transbordando água.
O guardador de carros magricela da rua onde trabalha, ao vê-la, logo percebeu algo: estava apagada.
A cada passo parecia que sua pele, já branca, se tornava transparente e seus órgãos pareciam se derreterem com o calor do sol.
Um pedaço de cabelo caiu. Subiu a escadaria, bateu o portão e saiu em direção à sua mesa, sem notar que já não podia falar. Estranhamente a indiferença dos outros a silenciara por completo.
Durante o dia estafante de tarefas que exigiam mais do que podia ceder, foi perdendo suas partes. Perdeu a parte sensitiva, mãos. Depois, assistiu à queda de seus cabelos longos, o que já não era novidade, e perdeu sua beleza. Então chegou a vez de perder os sons e as cores. O cérebro já havia se derretido por pensar demais, eram noites e noites mal dormidas, sem nada, apenas a luz da rua e uma parede.
17 horas. Enquanto as outras partes se agonizavam por ainda restar uma hora de ar condicionado e papéis, ela já era toda coração. Sangrava em cima da mesa, esperando por alguém que pudesse juntá-la os pedaços, assim, servindo de adubo à terra.
Quem sabe pudesse crescer ali algum fruto exótico e doce, se alimentando de amor aos pedaços. Talvez guardassem-no numa caixa de papelão para colocá-lo na estante e encher o gordo ego de orgulho por ter tido o que poucos tiveram. Ou ainda, quem sabe, a moça da faxina jogasse fora por tê-lo confundido com outra coisa qualquer, e então, fosse parar num saco de lixo, reciclado, seminovo, eternamente marcado.

A efemeridade da vida não traduzia com exatidão a rapidez dos atos dela.

Seus sonhos não eram irreais. Sonhara com o possível, bastava abrir a porta ou enterrar seu coração.





quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Apaguem as luzes, por favor

A mulher de branco tenta me fazer engolir algumas pílulas, mas eu não quero. Tudo o que eu quero é sair desse lugar. Maldita enfermeira, quero que ela e os remédios dela fodam-se.
Eu não sou nenhuma maluca para ficar aqui, trancada entre almofadas brancas com esse avental ridículo que me deixa quase descoberta. Mas sei bem que é essa luz intensa que me enfurece.
O saquinho com líquido transparente acoplado ao meu braço mostra que ainda há algo nas veias. Quase sempre, sem ter o que fazer, gosto de olhar as gotas caindo como uma incessante ampulheta. O que esta ampulheta não sabe é que não é mais sangue que corre nessas veias. O coração morreu faz tempo, já não bombeia mais. Minha respiração é mero reflexo.

Preciso sair daqui, mais nada. Onde está a janela? Não existe mais contato com o mundo exterior.
Ninguém notaria que eu desapareci. No máximo, algumas pessoas confabulando a respeito da minha bunda aparente através do avental.

Só quero respirar, ser livre. Esquecer que isso tudo me asfixia.




Pensar nunca me leva a nada. Desde que cheguei aqui tive muito tempo pra pensar e nunca cheguei à qualquer conclusão decente. Então, paro de pensar. Quero ser burra. Quero ser cega, surda e muda. Assim deixo de perceber as sombras que me rondam.

Voltei a sentir o corpo tremelicar. Não sinto frio, nem calor, nem nada. Não sinto. Talvez seja o remédio, talvez seja a falta dele, talvez seja a indiferença.

Cadê os meus psicotrópicos?

Sorvete!

Finja que o padrão de um símbolo de afeto é segurar na mão e tomar sorvete juntos. Mas o outro fica constrangido em segurar muito tempo a mão pois tem hiperidrose e intolerância a lactose.



Ela só queria que ele parasse de só tomar sorvete de doce-de-leite e experimentasse o pistache...

[lendo vários contos do Anônimo Incógnito, mas este e este, especialmente]


terça-feira, 17 de novembro de 2009

KCl

A vida se trata de símbolos: o carro que dirigimos, a casa em que vivemos, as roupas que vestimos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Essa da[va] um caldo

Não faço o tipo de mulher ciumenta-neurótica-possessiva-psicótica. [in]Felizmente sou aquele tipo que não esquenta a cabeça... até sentir o cheiro da maldade. Talvez devido à minha larga experiência com homens canalhas, seja sendo ficante, namorada, noiva ou a outra [sim, tenho um extenso currículo com homens com namoradas, noivas, esposas ou até mais amantes], aprendi a perceber a maldade alheia com altíssima eficiência.

Não pensem que preciso de evidências gritantes como mensagens calorosas ou comentários maliciosos. Apenas um olhar, uma inspiração ou uma mensagenzinha à toa são suficientes para eu ver de onde vem a fumaça.

Mas o pior tipo é aquela 'amiguinha' que nunca foi relevante e de repente começa a se importar em manter contato [sim, bem pior do que ex-namoradas-esperançosas!]. Mas o ponto crucial nem é o contato em si, e sim a forma aparentemente despretensiosa com que eles aparecem, mas carregado de maldade. Sabe o que é pior nesse tipo de garotinha? É que a intenção delas nem é fisgar o namorado alheio, e sim apenas causar certa desarmonia para mostrar que são as donas do galinheiro.

Vulgares, demoram a entender que são apenas aves granjeiras numa área limitada. Apenas procuram meios de demonstrar desrespeito pela relação do 'amigo'. Esquecem que o fazendeiro gosta é de galinha ao molho, para degustar junto da sinhazinha.



1) #prontofalei.
2) Adoro fazer galinha assada com tempero mineiro.
3) Não gostou? Então é pra você mesma. Adoro! =D

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Completa[mente]

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce.

O tempo é outro.

E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver. Tem gente que tem cheiro de colo. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Tem gente que tem cheiro das estrelas que acendem no céu e daquelas que conseguimos acender na terra.

Ao lado delas a gente não acha que o amor é possível.

A gente tem certeza.



Ah, a tecnologia!

Lembro quando você apareceu. Egocêntrico, egoísta e orgulhoso. E ainda assim, apesar da antipatia imediata, algo me movia a manter contato com você. Meu maldito ego egocêntrico.

Num dia, de repente, você deixou de ser tão antipático. Conversou banalidades, interessou-se pela minha vida, me fez rir. E eu, do outro do lado, também me interessei pela sua rotina, pela sua história, por quem você era.

Me apaixonei por pixels em movimento e uma voz no fone de ouvido.

Estes pixels estão agora ao meu lado, me carinhando todas as manhãs, cantando eventualmente, encrecando esporadicamente... mas sempre aqui. Ao meu lado.

Isso é amor?


terça-feira, 27 de outubro de 2009

domingo, 25 de outubro de 2009

"Acho que você foi o beijo mais lindo que eu não dei"



Como uma simples frase pode colorir um dia...

Todo mundo é uma ilha

Mais um dia, menos um sonho.
Confusão, agonia, raiva. Não, não passou. O que eu canso de falar e ele se nega a entender, o lado dele que não me cabe e eu insisto em saber.
E assim os muros e as grades começam a aparecer.
Conviver é difícil.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Rotina

Ou "Como Se Tornar Uma Mulher-Utensílio"

Eu me surpreendo com a minha função multitarefa [além de ser mãe, filha, irmã, amiga, namorada, professora, blogueira e colunista].

Sou fogão, forno de microondas, geladeira, batedeira, liquidificador, vassoura, rodo, balde, pano, aspirador de pó, máquina de lavar louça, máquina de lavar roupa, secadora de roupas, ferro de passar, automóvel e boneca inflável.



Sorria, meu bem. Tem gente que chama isso de felicidade.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A inspiração desceu água abaixo quando escovei os dentes

Queria escrever. Tanto a dizer. Mas, afinal, quem escuta? Quem realmente se importa?

Não adianta, por mais que eu tente me convecer, sou eu por eu mesma. Sempre foi assim, por que haveria de ser diferente?

Tanto a dizer.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cuidado com o que desejas...

Cheguei em casa cansada. Da correria, do trabalho, do trânsito, da chuva. Deixei o carro na rua e corri entre os pingos que caíam com força sobre mim. Subi as escadas de dois em dois degraus e cheguei ofegante.

O colchão inflável na sala me convidava. O edredom me abraçou. Fechei meus olhos pra acordar num sobressalto.

Andei pelo apartamento em busca do que estava errado. Fui para o quarto e olhei a cama desarrumada, as roupas no chão. Na cozinha, a louça por lavar e o fogão pedindo por limpeza. Na lavanderia, roupas na máquina e no varal.

Na sala, encontrei tua blusa. Com teu cheiro. Faltava teu abraço, tua pele macia, teu beijo. Tua voz dizendo que me ama.

Sentei-me em frente à televisão e comecei a observar o relógio. As horas se arrastando. Vesti tua blusa. Teu cheiro na minha pele.



Só no Curinga ainda parece continuar acesa um pouco da chama do que as pessoas já foram um dia. E na linda figura da Ás de Copas. Ela vive dizendo que tenta 'encontrar a si mesma'.

Você, Curinga. Eu, Ás de Copas. Feitos um para o outro. Casa comigo?

Descartável

Durante a aula, os alunos debatendo e eu num tremendo estado de alienação. Olhei para o copo plástico com o resto do chá de camomila e foi como se o marcador azul em minha mão criasse vida. Enquanto os alunos falavam, o marcador riscava o copo.

Linhas, sem curvas. Desenho anguloso. Preenchido. Ao terminar, apenas duas letras.




Sem me dar conta, escrevi teu nome.

sábado, 5 de setembro de 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Pedido [de aniversário]


“Agora eu consigo atravessar e sorrir de dentro de você, mas daqui a pouco essa conexão vai oscilar. Às vezes eu não vou te entender ou vou ficar distante. Às vezes você vai parecer feia e eu fraco. Tudo vai mudar. Mil emoções vão girar, inúmeras coisas vão dançar dentro, fora, entre nós. Por isso a gente faz o voto de ficar junto, no meio disso tudo, e de explorar o amor ao limite, ver até onde ele vai, no que ele se transforma, quais suas mil faces.

Quando tudo desabar, quando duvidarmos, inseguros, de nosso próprio amor, quando doer, quando ficarmos confusos, vamos lembrar que se há um inimigo, se há algum responsável pelo sofrimento, não é você nem eu, mas a confusão. Nós vamos nos juntar até mesmo quando estivermos mal. Vamos nos unir para dissolver nossos obstáculos, em vez de achar que uns problemas são seus e outros meus.

Sentimentos e sensações vem e vão, despontam, passam e cessam. E nós somos o espaço onde isso tudo se dá. Nós somos aquilo que fica. E eu quero ficar, ficar desse jeito, sempre presente, sem fugir, sem me esconder, penetrando tudo o que surgir pela frente, eu quero ficar com você.

Por que você? Sinceramente? Não é que eu confie em você, pois somos todos movimento constante. Eu mesmo não sou uma boa base para nossa relação. Não é exatamente porque você me faz bem ou porque eu beneficio sua vida, mas porque nós juntos fazemos muito bem um ao outro, e nós para os outros. Mais do que de você, gosto mesmo do que somos como um casal.

Eu aposto no espaço entre nós, naquilo que conseguimos fazer surgir juntos. Sei que poderia visualizar isso em outra pessoa, mas por que não com você?

Sinto-lhe informar, mas você vai se casar comigo.”

texto de Gustavo Gitti

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

♪ Só enquanto eu respirar ♫


Te acordarei sorrindo todos os dias
E sorrirei nos dias em que você me acordar
Procurarei teu abraço à noite
Sussurrando ao teu ouvido o quanto eu te amo
Te darei comida na boca
Enquanto te observo com afeto
Tentarei te surpreender a todo momento
E fingirei surpresa quando não conseguires fazer o mesmo
Me emocionarei a cada vez que te ver deitado em nossa cama
Ou brincando na sala com as crianças
Nosso filho sempre ouvirá boas histórias sobre você
A ponto de se espelhar em alguém tão incrível
Cozinharei o que você gosta
E te farei experimentar sabores desconhecidos
Te receberei de braços abertos
Mesmo depois de um dia cheio
Vou te massagear depois de um dia cansativo
Enquanto ouço como ele aconteceu
Tomarei banho com você
E lavarei tua alma das penúrias do mundo
Te farei carinho mesmo quando não mereceres
Porque lembrarei do que te trouxe até aqui
Ficarei brava com você ocasionalmente
Mas jamais isso vai diminuir meu sentimento
Comemorarei cada vitória sua
Te lembrando o quanto você é capaz
Te esperarei para dormir toda noite
E te desejarei com a mesma força da primeira vez
Te beijarei a cada chegada ou saída
Lembrando da minha vontade de te ter ao meu lado
Nunca te cobrarei atos infundados
Nem palavras sem sentido
Te decepcionarei algumas vezes
E te lembrarei que às vezes escapo do baralho

Te levarei café na cama
Acharei graça nos teus olhos sonolentos
Apreciarei teu cabelo empinado

Te olharei da forma que gostas
Encolherei meus ombros
Sorrirei largamente
Farei as caretas que já são tuas também

Se te ferir, reconhecerei meu erro
Se te chatear, pedirei desculpas
Se me desejares, ali estarei

'Só enquanto eu respirar'.

sábado, 29 de agosto de 2009

Conto de fadas

'Era uma vez...'

Lembro da expectativa de esperar o voo chegar de Porto Alegre. Meu coração mal cabia dentro do peito, eu tremia feito louca e minhas mãos frias como duas pedras de gelo. Eu, já atrasada, não conseguia nem sair do carro.

Mais um cigarro.

Ao entrar no hall, já pude vê-lo sentado, com uma xícara de café à sua frente, conforme eu pedi. Pensei em chegar por detrás dele e falar muitas coisas. Só consegui chegar. Ele abaixou a cabeça e olhou para os meus pés, subindo o olhar bem devagar e levantou-se. Sorriu.

O abraço mais apertado que já pude dar. O ombro que acolheu minha face. O beijo mais macio que provei. Foram, com certeza, três dos melhores dias da minha vida.

O triste é a partida, mas era necessária. Os aviões ficaram para trás. Atravessei a rua, lembrei do meio-fio. Depois, uma sensação estranha de que eu tinha esquecido algo me tocou a alma, mas eu não conseguia lembrar o que era, só sei que era uma sensação parecida com saudade. Sim, eu sinto saudade.

Ele me levou o que eu tenho de mais precioso. E agora, vem me devolver.

Os olhos que me encantam, o sorriso que me motiva, a voz que me acalma e o toque que me seduz. A tatuagem que, ele não sabe, mas é minha.

Ele, meu. Eu, dele. E felizes para sempre.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Love is a temple. Love, the higher law.

Bono sabe das coisas!



Did I ask too much, more than a lot?
You gave me nothing, now it's all I got
(.)
You ask me to enter, but then you make me crawl
And I can't be holding on to what you got
When all you got is hurt



Não conhece a letra? Clica aqui, ó.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Bah!

Não adianta mesmo. Dar murro em ponta de faca só fode com a minha mão, e a faca continua ali: fria e afiada. Só quero ver a chiadeira na hora em que eu entortar essa faca! Minha mão cicatriza, mas o aço fica marcado.




Ai, quer saber? Vou depilar a perna com pinça que eu ganho mais.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O fim

“O que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer
(.)
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

Você olha para a parede branca à sua frente, vira a cabeça para a esquerda, olha a porta marrom gasta do armário; agora vira para o lado direito e não vê o céu estrelado e a copa da árvore junto à janela. Agora olha de novo para a frente, para o futebol na TV (que nunca te interessou) pendurada na parede. Você respira com dificuldade enquanto espera pela fisioterapeuta e, antes dela, o copo de suplemento. Você aumenta o volume da TV para ouvir melhor o jogo de futebol, 'seu companheiro das quartas à noite', e deixa de lado os diversos livros que jamais acabará de ler.

Você tem a alma transtornada e reclama que não gosta de canja de galinha. Reclama dos médicos, dos familiares, da salada de frutas. Você não quer morrer, mas começa a desconfiar de que não está melhorando e que talvez não se recupere mais, mas faz com que essa ideia passe rápido. O futebol ajuda nisso.

Passam os dias, algumas vezes eu passo pela sua casa. Vou viajar. Vou dar um novo rumo à minha vida, vou me lembrar que sou, também, mãe e namorada. Você ficará com meu irmão como sempre tem sido, o tempo todo. Você olha para mim e suas últimas palavras, balbuciadas sob a dificuldade respiratória, são 'não me abandone aqui sozinha'.
Fico com raiva, quero berrar que a mãe que você foi não lhe dá o direito de me dizer isso e que ficar na sua casa com o cheiro de urina, doença e morte que você trouxe é uma tortura. Mas me controlo e respondo, calmamente, que você não está abandonada, que terá companhia o tempo todo, e que domingo à noite estarei de volta.

Eu estou triste, sim. A morte é definitiva, e saber que ela anda nos rondando me assusta.

Na lembrança mais antiga que tenho com você, eu estou andando com você de mãos dadas na rua, à caminho da escola, debaixo de um guarda-chuva que nos protegia de uma fina garoa. Naquele dia eu só queria ir com o meu guarda-chuva pra escola, e lembro que essa história acabou comigo faltando à escola, deitada na cama chorando. Eu tinha marcas pelo corpo e não tinha muito menos que 4 anos. A partir daí, sua figura materna seria para mim uma quase permanente ausência.

Enquanto vivi dependendo de você também tive um dos períodos mais difíceis que atravessei, que vejo agora como uma densa, escura e turbulenta nuvem. Você foi ausente por mais de 20 anos e agora exige canja de galinha, atenção e amor? Depois daquela conversa em que você pediu perdão pela mãe que foi, e eu perdoei [ambas fingindo ser sinceras], aconteceria, quem sabe, um milagre? Você seria capaz de deixar o egoísmo de lado e olharia para os filhos, para a neta, para as pessoas em volta? Você conseguiria, além de exigir tudo para si, doar-se um pouco, apesar da doença? Você e eu, no fundo, sempre soubemos que não. Você tem uma alma muito, muito atormentada. E, se antes havia pelo menos a casca de uma mulher pequena, esforçada e com alguma beleza, agora a doença apodreceu esta casca. Há apenas o céu estrelado com a árvore na janela, o futebol, o cheiro de urina, doença e morte.

É assim que termina.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tá. Surtei.

Putaqueopariuvaitomanucuseufilhodaputavaicheirarbucetapraverseébomporqueeujátôdesacobemcheioenemligosealguémvaientenderounãomaseusóprecisoquebrarumaslouçasarrebentarumasportassofreralgumasfraturasexpostasporqueassimnãodáeunãosoudeferronemvocêentãopraquêcomplicartantoporqueascoisastemqueserassimtãodifíceissaudadedosmeusdezesseisanosnãotinhaqueesquentaracabeçacomnadaeagoraeutôcansadadessavidadeadultinhasermãetrabalharprofessorardonadecaseareaindaterqueaguentarosproblemaseasreclamaçõesdosoutrosqueeutôpoucomefudendoeopagamentoquenãocaiuodinheiroquetáacabandoaviagemqueeuqueroevoufazeraamigaquevemficarcomigoonamoradoquevemficarcomigotodomundovemficarcomigoequemcuidademimmeusantodeus?



TPM é uma merda.


[Re]Começo

Toda vez que algo tem um fim é dolorido. Dói mudar, dói fazer de novo. Dói encarar os erros.

Mas o importante nunca se deixa apagar. Aquilo que realmente importa continua ali, intocado, imaculado.

[Re]Comecei.

Deixei de ser quem eu era. Incrível como uma morte é tão dolorosa, mas meu luto acabou. Estou renascida e revigorada. E tudo aquilo que realmente interessa renasceu, ainda mais forte. Sem medos, sem dúvidas, sem reentrâncias.

Só eu e meu sentimento.

Precisava passar por este velório para que estivesse pronta para as mudanças que estão por vir. E um novo espaço para que eu possa me dissecar era necessário. Uma nova casa, que não será divulgada. Quem chegar aqui chegará por seus próprios méritos [ou curiosidade, vai saber].

Em duas semanas deixo a máscara da mãe-solteira-forte-independente para vestir minha alma, para exercer novos papéis. Continuarei sendo a mãe, mas passarei a ser um tipo contemporâneo de esposa.

Volto a sorrir, como se debutasse. E, a duas semanas do meu aniversário e da mudança mais esperada da minha vida, percebo o quão importantes as pessoas envolvidas são.

Pensei que era o fim, mas era apenas o início.

E que venha em paz. O que o futuro trouxer.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Tentando renascer das cinzas

Como se faz para as coisas voltarem a ser como sempre foram e deveriam continuar sempre?

Uma palavra mal colocada, uma história mal contada, uma mentira repetida. Sentimentos tão coloridos outrora, agora se misturam em nuances de sépia. Enegrecidos, doloridos, pesados.

A falta.

Falta carinho, atenção, vontade. Tudo aquilo que eu via no outro fazem parte de mim agora. Mais do que nunca, não tenho dúvidas. Estou seca, oca. Já não sinto como antes - e como eu gostaria de voltar a sentir! Voltar a ver graça nas pequenas coisas, sorrir com músicas, sentir saudade.

Já não sinto. Quase nada.

Gostar virou hábito. Estar junto, desejar uma vida a dois... um desafio. Atualmente sinto mais medo de ficar sozinha do que qualquer outro sentimento. Feio, mas é a realidade. Me olho no espelho e não me reconheço, não tenho mais o mesmo cheiro nem a mesma textura. Meu coração mudou o motivo de querer: agora quero porque é difícil. Mais uma conquista, mais um risco no revólver.

É triste.

Depois de sentir as maravilhas de amar e ser amada, só restou o pó. Pó seco e denso, daquele que entope as narinas e resseca o pulmão.

Não restou quase nada.

Ainda rezo todas as noites para ser salva. Uma salvação incoerente, resquícios de um desejo.

Onde eu fui parar?

Me salve, nos salve... antes que seja tarde. Ou já é?

O que não se pede

Porra. Em que encrenca eu fui me meter. Mas não dava pra me manter impassível diante daqueles olhos, daquele sorriso. Da jogadinha que ela faz com a cabeça e morde a boca. E me deixa louco.
Sério, não consigo entender o que se passa pela cabeça dela. Será que ela é bipolar? Culpa da TPM? E como vai ser depois?
O que ela antes achava engraçadinho e a fazia sorrir com aqueles dentes grandes agora a deixa carrancuda. Quase consigo sentir a mágoa dela. Quase sólida. Como aquelas pernas.
Ela diz que tem muita coisa. E não se abre. Não sei ler pensamentos, ainda não fiz o curso básico de telepatia. Caralho, mulheres são todas complicadas! E eu ainda insisto nela. Guria egoísta.
Ela não deve perceber tudo o que faço pra ficar com ela. Aliás, percebe e aprecia. E me manipula, filha da puta. Puta mesmo, a mãe dela é uma farsa.

Ela é uma farsa.

Fico esperando que ela diga o que acontece, o que tanto a incomoda. Ah! Mas é claro! Eu sei o que a incomoda, no fundo eu sei. Mas não aceito. Não admito. Não enxergo com os olhos dela, por isso não sei o que ela vê de tão errado.
Ela quer mais atenção. Tá, TPM e mulher carente é uma combinação explosiva. De novo. Todo mês é a mesma palhaçada. E ela ainda quer mais atenção. Não sei em que ponto a cabecinha maluca dela chegou que ela não enxerga que a minha atenção tem sido toda pra ela nos últimos meses. Até quando ela está longe, eu penso nela. E fico de pau duro quase sempre. Vaca.
Ela anda me vigiando, checando meus passos. Tenho certeza disso. Neurótica. E ainda culpa os outros, dizendo que ela não procurou. Mentirosa. Não vejo nenhum problema em revisitar o passado. Vai que alguém fala de mim lá? Faz bem pro ego, porra, e ela sabe disso. Ela faz a mesma coisa.
Será que o problema é o ego e o meu passado? Louca. Ela é egoísta, só pensa nela. Só ela pode ter maus momentos. Maluca. E bunduda.
Olho pela janela. O mundo me espera, ela me espera, mas eu preciso ter calma. Cometer um erro agora seria imperdoável. Meu maior erro é querer tudo ao mesmo tempo, isso me faz querer o irreal. Mas ela é real. E está aqui.
Disse que vou fazer tudo. Café na cama, flores, sacanagens. E ela não mexia um músculo, só balançava a cabeça.
O que foi que eu [não] fiz?
Foda-se, vou dormir. Gostosa.

Foda-se

Cansei de ser a mulher carente, saudosa, apaixonada. Cansei de ser atenciosa, amorosa, carinhosa, compreensiva. Cansei de guardar tudo aquilo que eu penso - e sinto - só pra mim. Cansei de ser uma bucetinha que dá gostoso, que não tem pudores na cama. No fim do mês, ninguém paga as minhas contas - e no fim da noite, eu amanheço sozinha.

Volto a ser a mulher independente, que quer mais é que o mundo exploda e que pouco se importa com a opinião alheia. Que sai à noite em busca de uma companhia fútil e efêmera. Que quer mais é que os homens continuem sendo meros objetos descartáveis, e se eles tem sentimentos, o problema é deles, não meu.

Eu sou isso, nua e crua.

E isso, nenhum homem tem culhões de encarar.

** O Chiclé de Menta sai do ar hoje à noite. Se tem algum texto que goste, fique à vontade pra copiar descaradamente. Não faz sentido eu continuar mantendo este espaço, prefiro me encarar com dignidade na frente do espelho todos os dias.

Amores imperfeitos

Ela o olhava com aquela expressão que ele já conhecia muito bem. A expressão de quem sabe que fez uma cagada homérica mas, truque da memória, não tinha a menor ideia do que era.
Ele a olhava desolado. Ela simplemente não entendia a dor que ele trazia. Uma dor constante, remoída, mastigada. Como alguém poderia errar tanto e nem se dar conta da dimensão de seus pequenos atos?

Ficaram se olhando por minutos intermináveis. Em silêncio. Vez ou outra ele abaixava a cabeça procurando sei-lá-o-quê enquanto ela mantia os olhos fixos, sem que ele percebesse que ela enxergava através dele.

Maldito passado que não se apaga. Ele sentia o nó subindo pela garganta e jurava pra si mesmo que não choraria. Nunca mais ela o veria chorando. Não por ela.
Ela não entendia nada e entendia tudo. Fingia que não era com ela, era mais fácil do que assumir a culpa pelo que já acontecera. Já fora condenada por tantos crimes que não se daria ao luxo de ser acusada novamente.

Ela não percebia, mas os olhos dele já a acusavam. Olhos vermelhos, marejados. A dor que insistia em formar um bolo na garganta. Ele, na ânsia de mostrar-se impassível, não notara que ela procurava no arquivo da memória o que raios havia a transformado em sapo.

Ações. Emoções. Palavras emocionadas que ela se negava a ceder.
Emoções. Ações. Atos racionais que ele se recusava a fazer.

Pelo travesseiro ele olhava a metade dela, com olhos inexpressivos. Foi então que ele se deu conta que o mundo não pararia porque ele precisava disso, o dia não deixaria de ser cinza e o mundo não ficaria colorido. Ele procurava sabedoria para lidar com aquela situação, que se fosse colocada abertamente, mudaria as manifestações dela. Era o que ele queria, mas não assim. Teria que ser espontâneo.

Ela olhava a metade dele, com a barba por fazer. Porquê raios ele insistia em assuntos outrora acabados? Ela conseguia invadir os pensamentos dele, quase que os lendo telepaticamente. Mas não entendia nada. Não entendia do que se tratava e nem porque ele a queria daquela forma. Ela sabia que ela não era boa com as palavras. Já fora, um dia, mas não agora. Se ela agisse como ele queria, talvez ela deixasse de ser quem era. Estava sendo difícil pra ela, mas ela estava tentando ser forte. E continuava sem entender a recusa dele em aceitar isso.

Seria talvez bom que não existissem verdades absolutas. Mas existem. Na vida há realmente coisas que são inalteráveis, que não dependem da nossa vontade ou sequer do nosso empenho. São o que são e nada mais há a fazer, a decidir ou a alterar.

Seria bom se ambos pudessem esquecer. A dor dissipa, a paixão dissipa. O amor condensa, assim como a mágoa.

Ela tinha as chaves dele. Mais ninguém. Já ele não sabia mais se tinha acesso à ela.

Ela tinha todas as certezas, enquanto ele carregava todas as dúvidas. Não era a primeira vez que se percebiam distantes, apesar da proximidade. Ele, emoção. Ela, razão. E o que um esperava do outro era justamente o oposto.

Ela é ele.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tanto!

Tão linda, tão meiga, tão carinhosa, tão inteligente, tão sapeca... Tão perfeita.


Só quem é mãe sabe o doce e o amargo de sê-la.


'And the wonder of it all it's that you just don't realize how much I love you'

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Assombrações

Resolvera ficar em casa naquele dia. Estava tão intrisecamente ligada à monotonia que nada a tiraria de casa naquele dia chuvoso.

Deixou de ir ao trabalho e se ocupou. Assistiu televisão, ouviu música, jogou video game e passou algumas horas no computador. Até que preferiu dormir um pouco.

Antes de dormir pensou no quão bem sua vida estava caminhando. Os planos feitos, as decisões tomadas, os desejos resguardados, as preferências respeitadas. Até os problemas estavam pequenos.

Sonhou. Um sonho fértil, colorido e romantizado. Com beijos, toques e promessas.

Quando acordou, sentiu um calor no peito, como se a tarde a afagasse. Se sentiu feliz. Mas não devia, não era correto. Tantas coisas acontecendo... ela não podia se dar ao luxo de sonhar. Não daquele jeito.

Justo ela que não costumava sonhar, agora era pega de surpresa pela sua imaginação.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tão rápido quanto o recobrar o fôlego ao sair de um mergulho

Um dia a menina estava cansada. Cansada da rotina, da monotonia, de ser quem ela era e como vivia.

Bem nessa época o menino apareceu. Num primeiro momento, galanteador e senhor de si, para só depois mostrar a beleza que existia por detrás daquela covinha.

A menina resistiu como pôde. O menino persistia como queria.

Eles se encontraram. Se amaram, fizeram planos, brigaram. E perceberam que um significava demais para o outro.

A menina se sentiu viva. Podia sentir o calor correndo em suas veias e tentando estourar seu peito. O menino se sentiu querido. Percebia a necessidade da menina em tê-lo por perto, mesmo que apenas para que ela dormisse em seu peito durante um filme na televisão.

E assim essa história foi acontecendo. Cheia de altos e baixos, de planos feitos, desfeitos e refeitos. Com uma maré de gente apoiando e contrariando.

Até que, numa tarde cheia de medo, foi tomada a decisão.



Como acaba essa história, só o tempo poderá dizer.

domingo, 16 de agosto de 2009

Considerações

O desejo profundo, o desejo mais real é aquele de aproximar-se de alguém. É o desejo intocado, em seu estado puro. Quando o desejo é puro, homem e mulher se apaixonam pela vida, vivem cada momento com reverência e conscientemente, sempre esperando o momento certo de celebrar a próxima realização. Pessoas assim sabem que o inevitável se manifestará, que o verdadeiro sempre encontra uma maneira de mostrar-se.

Quando chega o momento, elas não hesitam, não perdem uma oportunidade, não deixam passar nenhum momento porque respeitam a importância de cada segundo.

E, sem querer, eu não perdi uma oportunidade. Me deixei ser encontrada por um homem e me apaixonei por ele. Me é suficiente amá-lo, estar com ele em meus pensamentos e colorir essa cidade tão cinza com seus passos, suas palavras, seu carinho.

Esse encontro aconteceu quando cheguei ao meu limite: eu precisava morrer e renascer emocionalmente. Eu estava desesperada e não tinha nada a perder, e ele se manifestou e mudou o rumo da minha vida. Eu não tinha nada a perder e recebi tudo; eu deixei de ser quem eu era e me encontrei. Nele.

Hoje sou uma pessoa entusiasmada com a vida. E gostaria de poder fazer por ele o que ele fez por mim.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Qual a imagem que você faz da mulher de virgem?


Por acaso é aquela da donzela vestida de branco, pura e frágil? Sinto muito em dizer que esta idéia não tem nada a ver com a verdade!

A mulher de virgem pode largar tudo, inclusive o marido para seguir uma nova paixão sem dar a mínima para os comentários ou julgamentos. Ela é uma mulher que pode ser muito determinada quando se trata de ir em busca da felicidade, esteja ela onde estiver! Uma vez que aceitou um amor como verdadeiro este amor estará acima de tudo.

Ela é a única mulher capaz de ser terrivelmente prática e divinamente romântica.

Apesar de ser uma mulher determinada, ela não é do tipo que se atira de cabeça sem gastar um bom tempo analisando o que melhor deve ser feito. Também não é uma mulher que gosta de chamar a atenção como a leonina, ou que goste aventuras e mudanças bruscas em sua vida. Não, para ela tudo deve ter uma certa lógica e um motivo.

Não espere vê-la lutando por uma causa, fazendo discursos ou escalando montanhas com seu namorado apenas para estar ao seu lado. Esta mulher costuma gostar do sossego e não é muito afeita a aglomerações ou badalações. Normalmente costuma ter um gosto afinado para as artes em geral e na maneira de se vestir.

No trabalho, ela é persistente e prática, e descobrirá os pequenos erros que até um perito poderia deixar passar. Quando ela resolve se entregar à uma tarefa pode esperar que o resultado será o melhor! Ao se envolver com esta mulher, ela se encarregará de todas as suas preocupações, e provavelmente terá prazer nisto. Esta é a mulher perfeita para se discutir orçamentos planos para o futuro e o orçamento da empresa. O que pode parecer um tédio para outras mulheres, para ela é um prazer.

Uma coisa que é interessante notar na mulher de virgem é que ela sempre dá aquela intenção de que está preocupada com algo.

A preocupação é algo natural nesta mulher. Elas simplesmente não conseguem relaxar completamente. Mas não espere ver uma fisionomia carregada ou carrancuda. Normalmente elas costumam ter uma aparência serena e sempre o mesmo sorriso discreto, olhar tranqüilo e gestos calculados. Mas, mesmo possuindo este autocontrole e este comportamento sereno, elas costumam ser devoradas por ansiedades que nem o mais íntimo dos amigos tem conhecimento!

Apesar de ser uma perfeccionista, não quer dizer que seja perfeita. Ela tem os seus defeitos e estes podem ser muito irritantes. Elas acham que ninguém consegue fazer as coisas com tanta ordem e eficiência quanto elas. E o que irrita é que muitas vezes elas tem razão!A virginiana detesta quando é criticada abertamente. Se ela errar, diga-lhe com muito tato para não perder a amizade (ou a esposa).

Quando se trata de admitir que está errada, esta mulher parece sofrer um bloqueio mental. Ela tem mais facilidade para criticar os defeitos nos outros do que para aceitar os seus próprios. Não que ela ache que é perfeita. A virginiana sempre é muito critica com relação a sua aparência, trabalho, alimentação e no amor, claro!. Para ela não existe meio termo: ou consegue o melhor ou tem apenas o pior!

Também não espere ver esta mulher tendo sonhos ou ilusões sobre as pessoas mesmo quando está amando.

Ela é muito "pé no chão" e muito prática para se deixar levar por sonhos. Nem a taurina consegue ser tão pratica quanto ela. Nem mesmo o amor consegue cobrir os olhos da virgem e impedir que ela veja os defeitos e falhas do companheiro, durante o relacionamento.

Demonstrações dramáticas de amor, promessas sentimentais e exagero, não só deixa a mulher de virgem entediada, como podem assusta-la a ponto de nunca mais aparecer. Mas, seu coração pode amolecer se for conquistada aos poucos. Existem muitas formas de se conquistar esta mulher e manter a paixão.Mas a agressividade não está entre elas!

A virginiana busca mais a harmonia e a tranqüilidade em um relacionamento do que paixões loucas e amores impossíveis!

Também não é muito comum ver esta mulher chorando por um romance do passado ou se entregando a um amor platônico. Para ela o que importa é o que está ao seu alcance, e o que acabou tem que ser enterrado para que outro homem ocupe o lugar vago! Mesmo que uma decepção amorosa tenha causado muita dor em seu coração, esta mulher consegue disciplinar seus sentimentos e emoções a ponto de parecer que nem liga para o rompimento. Ela vai sofrer por dentro, mas este sofrimento não vai durar muito!
Ela dificilmente vai se deixar levar pela ilusão de que colando os pedaços vai conseguir refazer o que não tem mais conserto!

Ela se dedica totalmente apenas àqueles em quem confia, e as pequeninas coisas podem significar muito para ela.

Apesar de sua timidez e tranqüilidade, é bastante firme e forte para que para que os outros encontrem nela um porto seguro. Sua coragem e senso de responsabilidade costumam servir de conforto para as pessoas que ama, quando as coisas não estão boas!


** Quer ler sobre o seu signo também? Clique aqui!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Variações sobre um mesmo tema

Tantas ideias. Tanto pensamento. Tanto sentimento.

Tanto a dizer.










Mas as palavras foram embora, sem deixar sequer um bilhete de despedida.
"São coisas da vida
E a gente se olha, e não sabe
Se vai ou se fica"


domingo, 9 de agosto de 2009

O Dia dos Pai[drasto]s

Todo ano, quando chega agosto, as homenagens se fazem presentes aos pais. As lojas fazem promoções, os restaurantes apelam para as homenagens ao 'velho pai', as escolas elaboram trabalhos e encenações para o evento.

Pai é o protetor da candura, da infância, do lar. Pense-se em proteção e a imagem que surge, habitualmente, é a de um homem forte, zelando pela prole. A questão é atávica, pois sempre se imputou ao homem, pela sua força e coragem, a questão de proteção aos seus filhos.

No entanto, quando se fala de Dia dos Pais, desejamos lembrar de almas valentes que devem se encaixar em famílias já prontas. Desejamos lembrar da figura heróica do padrasto. Essa criatura que adentra um lar já formado e precisa ter o cuidado e o esmero de consagrado cirurgião.

Ele se enamora com uma mulher e a filha o enfrenta, logo de início: 'Se fizer qualquer coisa que magoe minha mãe, você vai se ver comigo.' Ou então: 'Se você pensa mandar em mim, só porque está com minha mãe, pode esquecer. Você não é meu pai.'

Esse homem deve conviver em bom relacionamento com sua namorada e mãe daquela garotinha. E ele procura, todos os dias, não esquecer disso, atendendo ao que faz e ao que diz. Ele sabe que pisa em terreno frágil.

Outro dia, a garotinha se prepara para uma festa e exclama: 'Preciso de sapatos para combinar com este vestido!' O padrasto, sem levantar os olhos do jornal, diz: 'Que tal darmos uma passada naquela loja que você tanto gosta?'

Ela chega em casa com o boletim ruim e depois da bronca da mãe, escuta o padrasto: 'Eu entendo do assunto. Posso ajudar, se quiser, estudando com você, para a prova de recuperação.'

E assim vai. Dia a dia, passo a passo, aquela figura estranha do padrasto vai conquistando espaço nos corações da filha e da sua namorada.

Com extraordinária habilidade, aquele homem vai dizendo o que pensa e o que seria melhor, já que lhe pedem a opinião. Não avança o sinal. Conquista o respeito, de forma paulatina e contínua.

Ah, padrastos de coração de ouro e paciência inesgotável. Dão carona para o cinema, vão assistir a apresentação da escola, se emocionam com as conquistas da criança.

Então, acontece: a garotinha pede conselhos sobre o menininho da escola. Faz questão de que ele a acompanhe naquela viagem para o sítio do avô. Por fim, um dia, aquela mocinha arrogante que o enfrentou, ameaçando-o caso ele magoasse a sua mãe, diz para a mãe: 'Ele é um cara super legal. Nunca faça nada que o possa machucar. Precisamos dele.'

Esse é o dia da recompensa do padrasto. O dia do reconhecimento por tanta dedicação. Por ter assumido filhos que não são da sua carne e de seu sangue, como se seus filhos fossem.

Por isso, quando pensamos em homenagear os pais, decidimos homenagear esta figura ímpar do padrasto.

Daquele que ainda se encontra em vias de conquista do afeto dos enteados. Daquele que já alcançou lugar privilegiado nos corações dos filhos da sua amada. Daquele que mãe e filhos descobriram que é tão importante, a sua presença tão especial que parece que ele sempre esteve ali.

[adaptado daqui]




Feliz dia dos pais para meu pai, para meu avô, para o pai da minha filha. E, especialmente, para aquele que no próximo ano também receberá presente nesse dia.

#amamos

sábado, 8 de agosto de 2009

Senso

Chega a ser assustador quando até letras de música começam a fazer sentido.



O que você me pede eu não posso fazer
Assim você me perde, eu perco você
Como um barco perde o rumo
Como uma árvore no outono perde a cor

O que você não pode, eu não vou te pedir
O que você não quer, eu não quero insistir
Diga a verdade, doa a quem doer
Doe sangue e me dê seu telefone

(...)

Toda vez que falta luz
Toda vez que algo nos falta
O invisível nos salta aos olhos
Um salto no escuro da piscina

O fogo ilumina muito por muito pouco tempo
Em muito pouco tempo, o fogo apaga tudo
Tudo um dia vira luz
Toda vez que falta luz
O invisível nos salta aos olhos


Sábias palavras, titio Humberto.

Eu sou um ás de copas. E você, que carta é?

Se no meio de todas as pessoas houver apenas uma que se surpreenda com a vida a cada instante e tenha a sensação, toda vez que isso acontece, de estar diante de algo fabuloso e enigmático... Se apenas uma experimentar a vida como uma aventura fantástica... E se ele ou ela experimentar essa sensação todos os dias...

Ele ou ela será um curinga no baralho.

Essas pessoas acordam de manhã com um estalo. É como se a cada manhã alguma coisa as lembrasse que são apenas um ser vivo vivendo uma aventura incrível. E de vez em quando esses pensamentos surgem na cabeça sem marcar hora, bem no meio da noite. Eles percebem que são uma pessoa e que só vão viver esta única vez. E depois nunca mais vão voltar.


A vida é muito dura, mas extremamente excitante. Não precisamos de um castelo frio e abandonado para sair à caça de fantasmas. Nós mesmos somos os fantasmas.

E as pessoas que enxergam isso tudo são curingas.

Os curingas não tem espaço. Não tem casa. Não são de ouros, nem de copas, nem de espadas nem de paus. Não são reis ou valetes, nem oitos, nem ases. São apenas curingas.

Curingas não tem números, nem naipes, nem ofícios. E a cada vez que mexem a cabeça, os guizos tilintam para lembrá-los de que não tem família, são sozinhos. Os curingas vêm ao mundo com o defeito de ver coisas demais e em profundidade. Os curingas as sentem.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sobre o tempo [2]


Pretérito
Mais que perfeito
Imperfeito
Simplesmente... perfeito

Futuro
Simples
Composto
Concreto

Presente
Simples
Contínuo
Meu melhor presente

Tempo
Que leva
Que traz
Me escapa e se esvai



quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Se aprendermos a olhar por um sonho, perceberemos que ele está bem perto

Alguém sabe de verdade o que é amar? Amar sem aquela incerteza de que seria apenas mais uma sensação prolongada de prazer que inevitavelmente acaba.

O amor cura aquela ansiedade e instala a tranquilidade. Ou será o oposto?

Amar não é desejar - com urgência e paixão uterinas - ter filhos com um alguém ou imaginar uma mesa repleta de filhos e netos.

Amar é dividir o peso das expectativas - sempre tão devastador. É curtir o dia a dia, a saudade, o ciúme, o carinho. É sentir que ele precisará de mim depois de um dia cheio, assim como eu precisarei do abraço dele; que só nós somos capazes de medir a beleza da nossa relação; que NADA nem NINGUÉM - em letras colossais mesmo - será capaz de me tirar os sentimentos que me fazem ser quem sou.

É entender que a obrigação de me salvar é somente minha.

E deixá-lo livre pra optar entre me deixar seguir - ou não - ao seu lado.

Horóscopo

"Virgem com ascendente em sagitário e lua em libra"

Grande merda! Não acredito em astrologia mesmo.

"O tarô diz que você está numa fase de decisões"

Fodam-se as cartas.

Me importa o real. O palpável. Aquilo que entra pelas narinas e é expelido pelos poros.
Me importa o surreal. O inexplicável. O que atravessa o corpo num calafrio e corta a linha de raciocínio.
Me importa o irreal. O abstrato. Sonhos que se sonha com quem se quer bem, só por sonhar, só por fazer feliz.

Bom saber que ainda corre sangue nas minhas veias.

Até pra ser egoísta precisamos do outro


um dia me fizeram acreditar
depois do pó nada mais haveria
mas aconteceu
consertando o mundo
poesia no meu travesseiro

um dia eu percebi
a mais pura mentira
é a mais bonita:
o universo conspira
e recita poemas no meu travesseiro

minha máscara caiu
levou o que eu tinha de mais belo
minha força
a ilusão da fortaleza
prazer, esta sou eu

insônia aquecida
embriaguez solitária
sinceridade indevida
curinga sem baralho
cigarro sem filtro

necessidade cruel
quero perto
ao lado
poeta
no meu travesseiro

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O silêncio, o vazio e o frio.

A solidão já virou amiga íntima. Depois de tantos anos ainda é ela quem deita minha cabeça no colo e passa a mão nos meus cabelos, me abraça forte e respira gelado no meu pescoço.

Ela só não consegue dizer 'Vai ficar tudo bem'.




Às vezes sinto que ainda preciso ser salva.




segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quase uma oração



"
Muito longe daqui alguém está cantando
Em silêncio e só, é quase uma oração."

Olhos nos olhos, beijos de bocas macias, abraços com cheiro de xampu, mãos e corpos quentes. Nossa química é mais forte do que nós mesmos e sabemos um o que outro pensa, sem precisar de uma só palavra. Perfeita simetria.

Sorrisos, peles vermelhas do vapor, as mãos dele passeando pelo meu corpo. Calafrios. A minha preocupação e o turbilhão dele à meia-luz. Lágrimas, confissões, promessas. Cumplicidade.

Saudade.

Tudo errado. Como a vida pode ser cruel! Quando se começa a acreditar que o sol vai aparecer ainda mais bonito, a previsão erra e o dia começa com uma neblina cerrada.
O acaso nunca parece estar ao lado dos amantes, mas não é por isso que se precisa desacreditar que um dia vai dar certo. A vida não nos deixa mudar os passos e dar meia-volta é pedir muito. As chances descem pelo ralo e não há como ir junto para resgatá-las.

A estrada é muito grande para um tempo tão curto.

Sendo assim, escolhem-se alguns atalhos e alguns deles tem estradas tortuosas, mas são percorridas mesmo que não levem a lugar algum. São apenas alternativas. Nunca se sabe para onde ir, o amanhã é o imprevisto de que tanto se teme. E é pensando no amanhã, neste mesmo amanhã que é sempre nublado, que os erros são cometidos, que são assassinadas, diariamente, partes de mim, de você, de todos nós.

O acostumar é o acalento daqueles que se sentem no deserto. Vista a roupa preta e ventila o corpo para ficar frio, pois é a melhor coisa a se fazer agora.

O mundo não vai parar porque se quer, não mesmo. E nem o céu vai ficar azul tão cedo e muito menos o mundo colorido. Então abra a cortina e seja livre.

A vida é mesmo injusta, mas é preciso aprender a vivê-la assim mesmo.

De tudo fica um pouco.
Se de tudo fica um pouco, por que não ficaria um pouco de mim?


** Me abraça e me acalenta. Me aquece... faz tanto frio. **

terça-feira, 28 de julho de 2009

E Agora José? [adaptado]



A esperança acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E agora Luca?


E agora você?


Você que é sem nome, que ri com os outros, você que faz prosa, que ama e protesta.


E agora Luca?


Está sem ninguém, está sem discurso, está sem carinho. Já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode.


A noite choveu, o calor não veio, o avião não veio, o colo não veio. Não veio a utopia e tudo acabou. E tudo fugiu. E tudo mofou.


E agora Luca?


Sua doce palavra, seu instante de fúria, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua casa de sapé, sua bota de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora?


Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta. Quer morrer na lagoa, mas a lagoa secou. Que ir para o sul, mas é longe demais.


Luca, e agora?


Se você gritasse, se você gemesse, se você se contorcesse, se você chorasse, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse.


Mas você não morre.


Você não é dura, Luca!


Sozinha no escuro qual criança de castigo, sem ufania, sem braços quentes pra te acolher, sem príncipe num cavalo branco que fuja a galope.


Você marcha, Luca!


Mas... pra onde?

#VDM

'Um dia de cão
Um mês de cães danados
Ordem no caos
Olhos nublados
Um cão anda em círculos atrás do próprio rabo

Um dia de cão
Um mês de cães danados
Ordem no caos
Olhos cansados
Não há nada de novo no ovo da serpente'

[Descendo a Serra - EngHaw]

domingo, 26 de julho de 2009

Ana e o mar? Mariana!



Mariana abriu os olhos. Mais um dia.

O celular se tremendo ao lado do travesseiro no horário de todos os dias, tocando aquela música que um dia fora trilha sonora da vida dela. Dela e de quem mesmo? Ah, claro. De mais um amor-da-vida-e-viveram-felizes-para-sempre. Contos de fada nem sempre tem final feliz.

Levantou-se da cama, tirou a calcinha de dentro da bunda, coçou o ombro e dirigiu-se à sala. Colocou uma música, acendeu um cigarro e olhou-se no espelho do corredor.

Todos os casais são iguais. Se amam e se perdem. Se dedicam e se esquecem. Se cobram e se traem. Enquanto um lado descobre os prazeres além-casamento, o outro recusa-se a enxergar a verdade. É uma queda de braço em que o perdedor sai amputado.

De frente para o espelho, de regata preta e calcinha rosa, unhas vermelhas e cabelos loiros. Cantava, tragava e dançava pela sala.

Mariana sentia-se livre. Não haveria mais desconfiança, não haveria mais ciúme, não haveria mais insegurança. Um basta para a intolerância e o egoísmo. Chega de perguntas sem respostas! Finalmente agira para dar um fim à tudo aquilo que a prendia, mesmo que um dia ela tenha acreditado que só assim estaria liberta.

Voltou para a porta do quarto e encostou-se no batente. Ainda segurava a bituca do cigarro, o filtro quase em brasa. Olhou para sua cama. Ele estava lá, os olhos vidrados nela. Mariana não resistiu e deu um sorriso de canto de boca.

Ele era tudo o que ela sempre sonhou. Bonito, carinhoso, sincero, viril e disposto.

Mariana curvou-se e deu um beijo demorado naquela boca fria. Seria o último beijo daquele casal.

Carinhosamente recolheu os travesseiros e lençóis tingidos de vermelho. Delicadamente pousou seus dedos sobre os olhos dele, a fim de fechá-los.

Pegou a faca ensanguentada no chão e suspirou. Sentiria falta dele.